1. Paraiba vive epidemia de partos prematuros

27/01/2008 - 23:44

Embora seja mais seguro e saudável para a mãe e para o bebê, o parto vaginal está perdendo espaço para as cesarianas. De acordo com o Ministério da Saúde (MS), de janeiro a novembro do ano passado, foram realizadas 15.875 cesáreas. Isso corresponde a 36,2% do total de partos realizados na rede pública de saúde paraibana, quando o recomendável pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é que essa taxa gire em torno de 15% a 20%.

Segundo o presidente da Associação Paraibana de Ginecologia e Obstetrícia, Geraldez Tomáz, na rede particular, a situação é mais alarmante, pois 98% dos bebês nascem através de cesáreas. Na maioria das vezes, o procedimento é desnecessário e solicitado pelas próprias mulheres, devido ao medo gerado pela dor do parto natural e pela vontade de "programar" o dia do nascimento do bebê.

Outro problema apontado por Gilberta Soares, psicóloga da ONG Cunhã Coletivo Feminista, é que muitas pacientes são estimuladas por seus próprios médicos a fazerem cirurgias cesarianas eletivas (agendadas) para terem seus filhos. Segundo ela, muitas mulheres evitam até mesmo as contrações e não chegam a entrar em trabalho de parto, quando são submetidas à cesariana. Nessa situação, o risco de mortalidade infantil aumenta, pois o bebê pode nascer antes do tempo, o que o torna mais vulnerável a infecções.

"Há um grande estímulo por parte dos médicos em relação à cesárea, porque para eles e para o hospital é mais prático e conveniente. Eles programam suas agendas e não vão precisar trabalhar nos finais de semana ou feriados", criticou.

Para a gerente executiva de Ações Programáticas e Estratégicas da Secretaria Estadual de Saúde (Geape/SES), Valderez Araújo Lima Ramos, os partos pré-maturos devem ser encarados como um problema e a redução da taxa de cesáreas ainda é um grande desafio. "Há uma verdadeira epidemia de partos pré-maturos na Paraíba e em todo o País. Assim como em outros Estados, não estamos conseguindo vencer essa batalha e reduzir o número de cesarianas", reconheceu.

"Parto sem dor"

O que muitas mulheres não sabem é que o Sistema Único de Saúde (SUS) garante, desde 1998, a analgesia no parto normal às parturientes. Mas o exercício do direito ao "parto sem dor" ainda não é uma realidade na Paraíba. Além da desinformação das mulheres sobre o assunto, as maternidades públicas não contam com a estrutura necessária e com anestesistas em tempo integral para oferecer um serviço capaz de atender a demanda. O Instituto Cândida Vargas, na Capital, promete ampliar a oferta de analgesia no parto normal a todas as gestantes em seis meses.

PB tem maior taxa de cesáreas do NE

Quatro em cada dez partos realizados pelo SUS/PB são cirúrgicos, o que coloca a Paraíba como o estado com a maior taxa de cesarianas do Nordeste, conforme os últimos dados disponibilizados pelo Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc/MS), referentes a 2005.

Enquanto o número de cesáreas aumentou 19,3%, entre 2001 e 2005; os partos vaginais diminuíram 12,7%, nesse mesmo período. A queda registrada no número de partos normais no Estado foi maior do que a média nacional (de 10,1%).

Segundo a gerente executiva Geape/SES, Valderez Ramos, nos serviços privados, quase todos os bebês nascem através de cirurgias eletivas. "Muitas mulheres atendidas na rede particular antecipam o parto para que a data coincida com aniversários de outros familiares ou até mesmo porque querem marcar a data de acordo com mapa astral, o que é um absurdo. A mulher de baixa renda também está imitando as mulheres de classe média e alta e já chegam nos serviços públicos pedindo a cesariana, mesmo quando não há indicação médica", explicou.

De acordo com Thiago Ronieri da Silva, coordenador de enfermagem do bloco cirúrgico da Clínica Integrada da Mulher (Clim) – um serviço de saúde particular localizado em João Pessoa -, existe uma grande solicitação da cesárea por parte das parturientes. "O número de cesáreas é muito maior do que o de partos normais na unidade. Há uma escolha por parte da paciente pelo parto cirúrgico, devido às dores e a outros mitos que envolvem o pré-parto. Temos uma média mensal de pouco mais de 100 partos e apenas três são normais. Já tivemos mês em que não houve nenhum parto normal; só cesariana", informou.

Entre a praticidade e a recuperação rápida

Uma das pacientes atendidas na rede particular é a estudante Helena Lucena Wallach, 19 anos, que teve seu bebê há 20 dias. Adepta do parto vaginal, Helena precisou mudar de idéia para garantir que a obstetra que a acompanhou no pré-natal realizasse seu parto. "Eu pretendia ter parto normal, mas, na última hora, tive que fazer cesariana porque minha médica precisava viajar e eu não queria ter meu filho com outro profissional. Eu era adepta do parto normal por ser natural e não um método cirúrgico. Mas, ter feito cesariana foi a melhor coisa que fiz. A cirurgia foi tranqüila, não senti dor e a recuperação está sendo boa. Os médicos não interferem na escolha. As mulheres preferem a cesariana pela praticidade, por ter dia e hora marcados. Essa praticidade também é estendida ao médico", explicou.

Ao contrário de Helena, a estudante de Bayeux, Carla Haydee Freire, 26 anos, grávida de dois meses, pretende ter seu primeiro filho através de parto vaginal. "Estou fazendo meu pré-natal na rede particular e ainda não conversei com o médico sobre o parto. Mas, se tudo der certo, quero fazer parto normal porque acho que ele é melhor e porque não tenho medo da dor. Minha mãe e minha tia tiveram filhos e fizeram os dois tipos de parto. Vi que a recuperação do parto vaginal é mais rápida e que a mulher sofre menos. Minha mãe passou quase um mês sentindo dor por causa da cesárea. Minha tia teve que ir para o hospital três vezes por complicações no pós-operatório", argumentou.

Até 12 horas em um parto

Segundo Valderez Ramos, para incentivar o parto normal, o MS também passou a remunerar melhor o obstetra. "Hoje, o médico recebe mais pelo parto normal do que pela cesárea e existem portarias ministeriais que limitam os partos cirúrgicos para que a maternidade possa ganhar o título ‘hospital amigo da criança’. Mesmo assim, um médico pode ficar até 12 horas partejando uma mulher, tempo em que poderia fazer até dez cesarianas. Parece que os médicos estão desaprendendo a fazer o parto normal e se sentem mais seguros para fazer o parto cirúrgico", problematizou.

Para o presidente da Associação Paraibana de Ginecologia e Obstetrícia, Geraldez Tomáz, tanto na rede pública, quanto na rede particular, o aumento abusivo do número de cesarianas está relacionado também com a má remuneração dos médicos. "O que o SUS paga para que os médicos façam o parto normal é irrisório, já que esse tipo de parto exige que o profissional acompanhe a paciente por oito, dez e até 12 horas. Por uma questão de sobrevivência financeira, o médico acaba optando pela cesárea. O mesmo ocorre na rede particular, pois o que os planos de saúde pagam não é suficiente para garantir uma boa remuneração ao profissional. O problema só será resolvido quando os médicos tiverem um bom plano de salários. Em outros países, os médicos são remunerados por todo o tempo que acompanham a parturiente", comparou.

SUS garante parto normal sem dor

O direito à analgesia no parto normal existe há 10 anos, mas ainda não é uma realidade para a maioria das paraibanas, uma vez que as maternidades públicas não estão estruturadas para oferecer o procedimento e nem dispõem de anestesistas para acompanhar a mulher durante o trabalho de parto.

Realidade para poucas mulheres

De acordo com o diretor científico da Sociedade Paraibana de Anestesistas, André Pacelli, apenas alguns hospitais da rede particular oferecem o serviço. "Hoje o parto sem dor é uma realidade para poucas mulheres que procuram o serviço privado. No serviço público, há a insuficiência de anestesistas e o SUS não paga os honorários desse profissional para que ele acompanhe, juntamente com o obstetra, a parturiente durante todo o trabalho de parto. A analgesia no parto vaginal é um avanço e uma forma de humanização. A assistência à paciente obstétrica deve ser integral e realizada por uma equipe multiprofissional, composta também pelo anestesista", argumentou.

Para o presidente da Associação Paraibana de Ginecologia e Obstetrícia, Geraldez Tomáz, a participação do anestesista é fundamental para estimular as mulheres ao parto vaginal. "Se a mulher faz um parto normal humanizado com o uso de anestesia, ela não vai querer saber de cesariana porque a recuperação do parto vaginal é muito mais rápida e o risco de infecção é muito menor. Em menos de 24 horas, a mulher submetida ao parto vaginal pode voltar a fazer suas atividades normalmente e iniciar o processo de lactação mais rápido também", justificou.

A gerente executiva da Geape/SES, Valderez Ramos, confirmou que as maternidades públicas não têm condições de garantir a analgesia no parto normal. "Mesmo sendo um direito, a mulher não consegue exercê-lo porque faltam anestesistas nas maternidades. Até nas grandes cidades existe a carência desse profissional e no Interior, a situação é pior. No ano passado, uma maternidade de Campina Grande tinha um anestesista que trabalhava de sobreaviso e tivemos que acionar o Ministério Público para resolver o problema", exemplificou.

Maternidades estão se estruturando

Apesar de garantida pelo SUS a analgesia de parto normal ainda é pouco utilizada nas maternidades públicas da Capital. O Instituto Cândida Vargas (ICV) e a Maternidade Santa Maria, de responsabilidade da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), oferecem o serviço apenas em casos excepcionais. Já, as pacientes da Maternidade Frei Damião, que é de responsabilidade da SES, não podem contar com o serviço, uma vez que a unidade está se estruturando para garantir esse procedimento, conforme informou a diretora geral, Flora Amorim.

Só em casos excepcionais

De acordo com o diretor do ICV, José Carlos Evangelista, isso acontece em virtude da grande demanda de partos que ocorrem nos serviços de saúde. "Nos casos em que a mãe realiza o parto sem dor, o profissional anestesista precisa acompanhá-la em todo o trabalho de parto. Muitas vezes, não dá para precisar o tempo que vai durar. Enquanto isso, há uma outra demanda de mães que também estão em trabalho de parto e precisam dos serviços profissionais. Então, a realização da analgesia ocorre em casos excepcionais", explicou. Ele disse que o serviço será ampliadaoa todas as gestantes, dentro de seis meses, quando serão instituídos blocos individuais, com monitoramento cardíaco e anestesistas em centros obstétricos para parto.

Já o diretor da Maternidade Santa Maria, Edson Neves, destacou que a analgesia não é indicada para todos os casos. "A secretaria vem trabalhando para tornar a analgesia no parto normal uma realidade para as mulheres, pois todas elas têm direito. Acreditamos que o processo permite à mãe um maior conforto ao dar à luz, no entanto, não deve ser feita em todos os casos, pois pode dificultar também a realização do parto, uma vez que a mãe perde a sensibilidade das contrações", ressalvou.

Treinamento de médicos

Segundo o secretário estadual de Saúde, Geraldo Almeida, os anestesistas aprovados no último concurso público passarão por um treinamento para garantir que todos estejam aptos a oferecer a analgesia de parto normal nas maternidades públicas estaduais. "Nem toda a paciente pode solicitar a analgesia do parto normal. Trata-se de um ato médico e é o profissional quem decide se isso é necessário ou não. Dependendo da fase do parto não dá para fazer a analgesia. Alguns anestesistas oferecem o procedimento na rede pública estadual", garantiu.

Meta é reduzir para 25% percentual de cesáreas

A Associação Paraibana de Ginecologia e Obstetrícia considera abusivo o aumento do número de cesarianas, um procedimento que, no SUS, é 53,6% mais caro do que o parto normal. O MS, por sua vez, já fez um alerta sobre a banalização do procedimento e estabeleceu como meta reduzir para, pelo menos, 25% o número total de partos cirúrgicos realizados nos Estados e no País.

Para alcançar esse objetivo, o MS limitou o número de cesarianas nos hospitais públicos; desenvolveu, desde 2006, a campanha nacional de incentivo ao parto normal e redução da cesárea desnecessária e criou estratégias de humanização do parto vaginal, como a capacitação de parteiras e de profissionais de Enfermagem e a qualificação do acolhimento dado à parturiente pelos profissionais de saúde.

O MS também elaborou portarias que garantem à mulher o direito de saber em que maternidade terá seu bebê e que prevêem a criação das salas de parto nas maternidades (local onde as mulheres permanecem durante o trabalho de parto, parto e puerpério imediato com seu acompanhante), além do direito da mulher ao acompanhante durante o parto.

Na Maternidade Frei Damião, pacientes como a agricultora, Alba Regina da Silva, 22 anos, que mora no município do Conde e que estava em trabalho de parto na terça-feira (22), já contam com um serviço de acolhimento humanizado e com uma sala de parto vertical. "É o meu segundo filho e estou me preparando para ter um parto normal. Já tive vontade de fazer cesárea só para me livrar da dor, mas as pessoas dizem que o parto normal é melhor e que a recuperação é mais rápida", disse.

Controle da dor

Segundo a publicação "Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher", de autoria do MS e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o controle da dor no parto normal é um direito da mulher garantido por portarias ministeriais (a de número 2.815 de 1998 e, posteriormente, a de número 572 de 2000) que incluem a analgesia de parto na tabela de procedimentos obstétricos remunerados pelo SUS.

Para a psicóloga da ONG Cunhã Coletivo Feminista, Gilberta Soares, existe uma grande desinformação das mulheres sobre esse direito. "A analgesia para o parto normal está garantida há 10 anos pelo SUS e pode ser indicada pelo médico quando o trabalho de parto é muito demorado e quando o processo de dilatação da mulher é muito lento. Mas, a parturiente também pode solicitar a analgesia. Em Recife, isso já acontece nas maternidades públicas. Aqui, há algumas maternidades que dispõe de anestesia. O grande problema é que as mulheres não sabem que têm esse direito e os médicos não vestiram a camisa de incentivo ao parto normal. Esse direito da mulher deve ser visto como uma prioridade do hospital", defendeu.

Gravidez na adolescência e falta de pré-natal

A gravidez na adolescência, a ausência de pré-natal ou um pré-natal de má qualidade são problemas que repercutem no aumento das cesarianas. Segundo Valderez Ramos, as gravidezes na adolescência são gestações de alto risco e por isso podem ter indicação para o parto cirúrgico.

Já a diretora geral da Maternidade Frei Damião, Flora Amorim, defendeu a importância do pré-natal para reduzir o número de cesáreas. "Realizamos, em média, 300 partos por mês, sendo que cerca de 30% deles são cesáreas que têm indicação médica. Por termos o título de hospital amigo da criança não podemos ultrapassar esse percentual. O grande problema é que muitas pacientes acabam fazendo um pré-natal de má qualidade, o que aumenta as chances de elas serem submetidas a uma cesárea. A maternidade é um ponto final de um evento que aconteceu há nove meses. Há uma questão cultural e quando o pré-natal, desenvolvido nas equipes do Programa Saúde da Família, faz também um trabalho de conscientização com a mulher sobre as vantagens do parto normal, a solicitação por cesariana é menor", explicou.

Risco de mortalidade materna

De acordo com os profissionais de saúde, o parto cirúrgico só deve ser realizado nos casos onde há indicação médica e onde o procedimento é decisivo para minimizar os agravos à mãe e ao bebê, como aconteceu com a dona-de-casa, Simone de Santana, 26 anos, que mora em Sapé. Por ser cardiopata, Simone teve que ser submetida a uma cesariana na Maternidade Frei Damião, em João Pessoa.

Nos casos onde não há indicação, a cesariana passa a ser um procedimento que é associado com maior morbidade e mortalidade materna e neonatal. "A cesárea requer a abertura de uma cavidade e do útero, o que vai deixar uma cicatriz. A morbidade é muito maior. A mulher demora mais para se recuperar e, com menos de 15 dias, não consegue fazer suas atividades sem sentir dor. Há um aumento de gases abdominais e facilidade para ter prisão de ventre", apontou o ginecologista, Geraldez Tomáz.

A probabilidade de complicação que exija histerectomia (cirurgia para retirar o útero) causada por uma hemorragia também é maior numa cesariana, assim como o risco de morte da mãe e as chances de desenvolver infecção hospitalar.

Por outro lado, as vantagens do parto normal são inúmeras. "É mais saudável para a mulher. O risco de complicação no pós-parto é menor; a recuperação é mais rápida; o sangramento é menor e a lactação surge mais rápido, o que é ótimo para a mãe e, principalmente, para o bebê. A evolução uterina da mulher também é mais rápida. Ela não passa por um processo anestésico, não fica acamada e se sente mais disposta", explicou Socorro Ventura, coordenadora do Centro Obstétrico da Maternidade Frei Damião.

Os argumentos de Socorro foram vivenciados pela costureira, Edvânia da Silva Vasconcelos, 21 anos, que mora no Bairro dos Novaes, em João Pessoa, e que estava se recuperando do parto normal na maternidade. "É mais saudável para mim e para o bebê. A gente só sente a dor na hora. Depois, já pode fazer as atividades sozinha. Não precisa fazer repouso e nem depende dos outros pra nada", disse.

Fonte: Correio da Paraíba
Autor: Cristina Fernandes