1. Hospital público é trocado pelas policlínicas

27/01/2008 - 23:46

O descrédito na rede pública de saúde e a falta de dinheiro para pagar o atendimento em um grande hospital está levando as pessoas a procurarem um segmento que vem crescendo cada vez mais na área da saúde: as policlínicas. Elas oferecem praticamente todas as especialidades nas áreas ambulatorial (consultas) e de diagnóstico a um preço considerado acessível em relação ao cobrado em um grande hospital ou clínica especializada. Um paciente paga em média R$ 100 por uma consulta com um cardiologista em um hospital particular de João Pessoa, uma das mais complexas especialidades na medicina, mas procurando uma policlínica, esse valor varia entre R$ 30 e R$ 40. Além disso, no hospital convencional, se o paciente necessitar bater um eletrocardiograma, terá que pagar mais R$ 50 ao hospital, e ainda, em alguns casos, a taxa de observação após trinta minutos da consulta é de R$ 30, dando um total de R$ 180. Claro que se muito pesquisar, o paciente até encontra hospitais que cobrem R$ 100 pela consulta com o eletrocardiograma incluso, mas talvez tenha que esperar até o dia que o médico cardiologista dê plantão na semana.

O feirante Josenilson Misael do Carmo, de 38 anos, veio de Pedras de Fogo (PB) para João Pessoa, com sua esposa, a doméstica Severina Tavares Mendes, de 41, e pagou por esse mesmo atendimento, na área de cardiologia, na Policlínica São Lucas, em Jaguaribe, um total de R$ 48, sendo R$ 20 da consulta médica e R$ 28 da bateria de exames que realizou, incluindo o eletrocardiograma, resolvendo seu problema em dois dias consecutivos em que visitou a capital. Ele não tem plano de saúde, o que considera muito caro, e disse que se tivesse procurado a rede pública, ainda estaria na fila de espera. "O sistema público é cruel. Aqui na policlínica, que é particular, o atendimento é melhor e o preço é bastante razoável", disse.

O aposentado José Bezerra, de 66 anos, levou a esposa para fazer um exame de sangue, e desabafou: "A rede pública não está valendo de nada, não atendem, falta remédio e médico, e eu vou fazer plano de saúde para quê? Para dar o meu dinheiro e eles dizerem que eu não tenho direito?".

A economia, por exemplo, num exame oftalmológico realizado numa policlínica em relação a uma clínica tradicional, é de pelo menos 50%. Um oftalmologista cobra até R$ 80 em uma clínica, por uma consulta, mas na policlínica essa mesma consulta fica entre R$ 30 e R$ 40.

Cerca de 37% a 49% das pessoas que procuram as policlínicas vêm do interior, de municípios como Pitimbu, Juripiranga, Pedras de Fogo, Mamanguape, Rio Tinto, Jacaraú, Itapororoca e outros, além da demanda de João Pessoa. Diariamente, uma grande policlínica da capital atende em média 300 pessoas, como é o caso da Policlínica São Lucas, em Jaguaribe. A agricultora de 21 anos Maria José da Silva levou o tio de 55 anos, Luiz Gonzaga dos Santos, "que só vive a fumar" para se consultar com um cardiologista na Policlínica do AMIP, em João Pessoa. Eles moram em Itapororoca e foram informados por uma vizinha que o atendimento é bom na policlínica. Por causa dos costumes do tio também agricultor e dos sintomas que vinha apresentando preocuparam a sobrinha e ela sentiu a necessidade de levar o parente a um médico porque "pobre também tem direito à saúde". A aposentada Maria Auxiliadora Gonçalves, de 67 anos, de Cajazeiras, não perde tempo. Pela terceira vez na policlínica, na última sexta-feira estava aguardando para fazer uma ultrasonografia por R$ 30, no AMIP. "Já vim três vezes e o atendimento é ótimo.

Instituições oferecem desde pediatria a densitometria

O procurador do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM), Eurípedes Mendonça, disse que do ponto de vista ético, a atuação da policlínica é legal, ou seja, não possui nada que infrinja o Código de Ética. Além disso, não há registro de denúncias no CRM contra esse tipo de estabelecimento de saúde em relação ao mau atendimento. "Essa clientela que procura as policlínicas não pode pagar um plano de saúde e está insatisfeito com o atendimento no sistema público", reclamou Eurípedes.

Uma outra infração que é necessária a observação, entretanto, é a remuneração dos médicos, que não pode ser muito baixa, aviltante, o que seria considerado anti-ético da parte do profissional, pois seria incompatível com a qualidade do atendimento médico. "Uma consulta completa nas operadoras de saúde é, em média, R$ 35, mas é paga no prazo de um mês, e paga todos os custos do consultório, água, luz, telefone, impostos. Na policlínica, o médico recebe remuneração de R$ 15, R$ 20, mas sem encargos", disse.

Nas policlínicas, os pacientes podem encontrar atendimento ambulatorial e diagnóstico para quase todas as especialidades. Entre os serviços estão audiometria, alergologia, angiologia, cardiologia, cirurgia geral, clínica médica, dermatologia, endocrinologia, endoscopia, ecocardiografia, eletrocerfalograma, gastroenterologia, geriatria, ginecologia, tomografia, mastologia, neurologia, neufrologia, otorrinolaringologia, oftamolmologia, pediatria, proctologia, reumatologia, urologia, teste ergométrico, ultrasonografia, densitometria óssea, psiquiatria, mamografia e raios X.

Apesar da relutância da população procurar o serviço público de saúde, a Prefeitura de João Pessoa vem investindo no setor. A assessoria da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de João Pessoa informou que a Prefeitura investiu este ano mais de R$ 17 milhões em obras de saúde, sendo R$ 14,5 milhões de recursos próprios. Entre as obras, construiu seis farmácias e investiu na reforma de Centros de Atenção Integral à Saúde (Cais), em Cruz das Armas, Mangabeira e Cristo.

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Consultas mais baratas custam em média R$ 20

O diretor clínico da Policlínica São Lucas, em Jaguaribe, Hélio Leite, disse que 95% da demanda é atendida na instituição e os procedimentos que a unidade não possui, são feitos em outras clínicas, a exemplo de tomografia computadorizada. As especialidades mais procuradas, segundo ele, são ginecologia, cardiologia, obstetrícia, otorrinolaringologia, neurologia, gastroenterologia e oftalmologia. Os preços são R$ 20 para consultas na área de clínica médica e R$ 25 as demais especialidades, chegando a R$ 30 apenas para a consulta oftalmológica.

Na AMIP, no Centro da capital, as consultas custam R$ 20 (para nutricionista), R$ 25 (pediatria, gastroenterologista, neurologista), R$ 30 (clínico geral), R$ 35 (endocrinologista, geriatria, nefrologista, urologista) e R$ 40 (cardiologista); Na São Luis, as consultas variam de R$ 30 a R$ 35 (oftalmologista).

O diretor clínico Hélio Leite, da São Lucas, enumera uma série de vantagens da policlínica, entre as quais está a agilidade no atendimento em qualquer especialidade, o preço abaixo do praticado na rede hospitalar e em clínicas convencionais e o nível de qualificação do profissional médico, mas ele defende que "as policlínicas, no máximo, devem cobrar até R$ 30 pela consulta mais especializada, para dar acesso às pessoas". "Se cobrarmos mais que isso não daremos acesso principalmente aos assalariados", disse.

Já o médico, segundo ele, é remunerado de acordo com o seu trabalho. "A rede pública não funciona como deveria e remunera muito mal aos seus profissionais. O médico recém formado que possui especialização dificilmente quer trabalhar na rede pública, preferindo trabalhar nos consultórios ou em grandes hospitais. A tendência natural hoje no Brasil é a ploliferação das policlínicas", disse.

Número de policlínicas cresce em Campina, mas maioria é irregular

Em Campina Grande, as policlínicas também têm atraído a população e nos diversos estabelecimentos médicos com essa característica na cidade, o preço médio cobrado pelas consultas é de R$ 30, bem inferior ao cobrado nos consultórios. Mas segundo informações do Conselho Regional de Medicina (CRM), apenas uma policlínica - cujo nome não foi revelado - é devidamente registrada no órgão. Em todo o restante do Estado, somente nove policlínicas são regularizadas junto ao CRM, e ficam distribuídas em João Pessoa, Guarabira e Picuí.

Segundo o vice-presidente do CRM da Paraíba, cardiologista Noberto José da Silva Neto, os hospitais públicos estão cada vez mais carentes de recursos, e os atendimentos estão cada vez mais precários, sempre com filas quilométricas e funcionários mal treinados para lidar com o público. Para ele, estes são os principais fatores responsáveis pelo aumento da procura pelas policlínicas, que, na clandestinidade, praticam preços mais baixos que os dos demais estabelecimentos.

"Cobram mais barato porque muitas vezes possuem profissionais menos qualificados", declarou o vice-presidente do conselho. Ainda de acordo com Noberto, para ser cooperado de um plano de saúde como a Unimed, por exemplo, o médico tem de ter, no mínimo, um título de especialista ou uma residência médica reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC). "O profissional não se especializa, e por isso pratica essa consulta popular nas policlínicas, já que não tem espaços em outros estabelecimentos, o que acaba sendo muito ruim para o mercado", avaliou, citando o exemplo do fechamento de dois hospitais que eram referência em maternidade e pediatria em Campina Grande - a Materdei e a Samic. "Fecharam porque não conseguiram sobreviver a essa dura realidade do mercado, e ainda por cima o SUS só paga R$ 5 pela consulta. Temo que o crescente número de policlínicas gere uma crise no setor", disse.

Fonte: Jornal da Paraíba
Autor: Aline Lins e Tiago França